Aluno é expulso de academia após filmar personal se alimentando em banheiro em Porto Velho; caso levanta debate sobre dignidade e legalidade
Um vídeo gravado dentro de uma unidade da Smart Fit em Porto Velho viralizou nas redes sociais nesta semana e provocou forte repercussão nacional. As imagens mostram um personal trainer se alimentando no chão do vestiário masculino, ao lado de boxes de banho, enquanto outros alunos utilizam os urinóis.
O episódio ganhou novos contornos após a academia decidir expulsar o aluno que fez a gravação, reacendendo discussões sobre regras internas, direitos de profissionais autônomos, privacidade e princípios de dignidade humana.
O que mostra o vídeo
O registro foi feito pelo empresário Allann França e mostra o personal trainer Guilherme Feitosa se alimentando dentro do banheiro da academia. Segundo Guilherme, a prática seria recorrente entre profissionais externos devido à inexistência de um espaço apropriado para refeições.
Em entrevista ao g1, Guilherme afirmou que, ao assinar contrato com a rede, foi informado sobre a regra que proíbe o uso do refeitório por personal trainers autônomos, mas recebeu a promessa de que um local adequado seria providenciado — o que, segundo ele, nunca ocorreu.
“A realidade é que muitos personais sempre precisaram se alimentar ou até descansar no banheiro, por não haver área comum. Isso sempre foi visto como algo ‘normal’, apesar da indignação de alunos”, relatou.
Após cerca de um ano atuando na unidade, Guilherme decidiu encerrar sua relação profissional com a academia. Pouco depois, vídeos que já circulavam entre alunos passaram a ser publicados nas redes sociais, trazendo o caso a público.
Por que o aluno foi expulso
De acordo com a Smart Fit, há proibição expressa de captação de imagens dentro de vestiários, com o objetivo de preservar a privacidade dos frequentadores. A empresa informou que qualquer pessoa que viole essa regra está sujeita a sanções, incluindo expulsão.
O aluno Allann França afirmou que a intenção da gravação não foi expor pessoas, mas sensibilizar a empresa sobre a situação vivida pelos profissionais. Ainda assim, após a divulgação do vídeo, ele teve sua matrícula cancelada.
Como funciona a relação com personal trainers
Personal trainers que atuam na Smart Fit não são empregados da rede. Eles trabalham como autônomos, firmam contrato de uso do espaço e pagam uma taxa mensal — cerca de R$ 250 — para atender seus alunos dentro da academia, além de arcar com a compra do uniforme exigido.
Segundo as normas internas da empresa, esses profissionais não têm acesso aos refeitórios, podendo circular apenas nas áreas de treino e nos vestiários.
Debate jurídico: o que dizem os especialistas
Para o advogado trabalhista Sandro de Melo Vieira, a análise passa, inicialmente, pelo contrato firmado entre as partes. Ele ressalta que a academia pode impor regras, desde que estejam claras e formalizadas, mas destaca um ponto central:
“Mesmo em relações sem vínculo empregatício, é dever da empresa garantir condições mínimas de saúde, higiene e segurança para quem presta serviços em seu espaço.”
A advogada trabalhista Aline Silva vai além e classifica o caso como um exemplo de precarização laboral. Segundo ela, impedir o acesso a áreas de descanso ou alimentação pode caracterizar discriminação, ainda que os profissionais sejam autônomos.
“Esses profissionais pagam para usar a estrutura da academia. Não é aceitável que façam refeições em banheiros, um ambiente insalubre. A dignidade da pessoa humana deve ser respeitada em qualquer relação de trabalho”, afirma.
Legalidade x moralidade
Quanto à expulsão do aluno, especialistas apontam que a medida pode ser considerada legal se houver regra clara sobre a proibição de filmagens em vestiários. No entanto, Sandro de Melo Vieira alerta para a necessidade de contraditório e ampla defesa antes da aplicação de qualquer punição.
“Gravar em vestiário pode configurar ato ilícito, mas cada caso precisa ser analisado com cautela. Não se deve punir sem dar oportunidade de defesa.”
Para Aline Silva, o centro da discussão vai além da legalidade:
“Não é apenas uma questão jurídica, mas moral. Permitir que um prestador de serviço se alimente em um banheiro fere frontalmente os princípios da dignidade humana. Punir quem denuncia agrava ainda mais o problema.”
Posicionamento da empresa
Questionada sobre uma possível revisão de contratos e regulamentos, a Smart Fit informou, em nota, que “está e sempre esteve atenta ao bem-estar e à segurança de seus profissionais e usuários”.
O Conselho Regional de Educação Física também foi procurado para comentar o caso, mas não respondeu até a última atualização da reportagem.





































































