Preço baixo do petróleo pode atrasar transição energética, diz especialista

O preço baixo do petróleo nos mercados internacionais pode reduzir a velocidade da transição energética rumo a fontes renováveis, afirmou o pesquisador e professor David Zylbersztajn, ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP), em entrevista recente, observando que a competitividade dos combustíveis fósseis ainda pesa sobre decisões de investimento e consumo energético global.


Preço do petróleo e competitividade dos combustíveis fósseis

Zylbersztajn ressaltou que, apesar da crescente ênfase internacional em reduzir o uso de combustíveis fósseis, a participação dessas fontes na matriz energética global tem caído lentamente nas últimas décadas — de cerca de 85 % em 1990 para aproximadamente 80 % atualmente — indicando que a substituição por energias limpas ainda avança de forma modesta.

Segundo ele, o preço relativamente baixo do petróleo torna fontes fósseis ainda competitivas em comparação com alternativas de baixo carbono, como biocombustíveis ou eletricidade renovável, reduzindo incentivos econômicos imediatos para empresas e consumidores adotarem soluções mais limpas.



Efeito sobre a transição energética global

O especialista explicou que, mesmo para empresas ou governos que desejam migrar para combustíveis com menor teor de carbono, a análise de custos frequentemente favorece a continuidade do uso de petróleo e derivados se o preço destes permanecer atrativo no curto prazo. Essa dinâmica pode desestimular investimentos em tecnologias e infraestrutura de energia renovável no curto e médio prazo.

A transição energética — processo de substituição de combustíveis fósseis por fontes mais limpas como solar, eólica e hidrogênio — depende não apenas de políticas públicas estruturadas, mas também de choques de preços que façam com que alternativas renováveis se tornem mais vantajosas economicamente. O cenário atual, com preços de petróleo relativamente baixos, pode retardar esse equilíbrio de mercado.


Desafios estruturais no uso de fósseis

Zylbersztajn também destacou que, apesar do possível atraso na transição, a dependência global de petróleo não deve desaparecer rapidamente. Ele explicou que, em termos de volume, a participação dos combustíveis fósseis nas matrizes energéticas ainda tende a se manter elevada por muitos anos, mesmo com o crescimento gradual de energia limpa.

Esse cenário reflete não apenas decisões de preços, mas também desafios de infraestrutura, investimentos necessários em redes elétricas e armazenamento, e padrões de demanda que ainda dependem fortemente de combustíveis tradicionais.


Debate mais amplo sobre energia e clima

Especialistas em energia observam que a transição energética também enfrenta outros obstáculos além do preço do petróleo, incluindo incertezas regulatórias, custo de capital para novas tecnologias e ritmo de inovação em setores complementares. Relatórios internacionais indicam que o setor de óleo e gás ainda desempenha um papel central na economia global e que transições mais rápidas exigirão políticas públicas contundentes e incentivos robustos.


🧩 Encerramento

A análise de Zylbersztajn indica que, diante de preços baixos do petróleo e de dependência persistente de combustíveis fósseis, a transição energética global pode progredir mais lentamente do que o esperado, a menos que se intensifiquem políticas e incentivos que tornem as fontes renováveis ainda mais competitivas e atraentes tanto para mercados quanto para consumidores.