Bancos centrais e déficits governamentais: estão estimulando situações insustentáveis?

Economistas alertam que bancos centrais de países com alto nível de dívida pública, como Estados Unidos e Japão, podem estar facilitando déficits governamentais insustentáveis, criando riscos para a estabilidade financeira no longo prazo, afirmou o economista Raghuram G. Rajan em artigo publicado pelo Project Syndicate.

Dívida e déficits em patamares preocupantes

Segundo o texto, países com dívida pública igual ou superior ao tamanho de sua economia enfrentam pressões crescentes devido a déficits orçamentários elevados. Quando isso ocorre em um contexto de taxas de juros reais mais altas, os déficits podem se expandir ainda mais ao refinanciar dívida, levando a um ciclo vicioso de aumento de déficits e custos financeiros que pode minar a confiança dos investidores nas finanças públicas.

Papel dos bancos centrais e financiamento indireto

O artigo explica que, historicamente, os bancos centrais evitavam financiamento direto dos déficits públicos. No entanto, nos últimos anos, práticas como a aquisição de grandes volumes de títulos governamentais por meio de políticas de estímulo monetário — exemplo disso é o quantitative easing (QE) — acabaram por proporcionar apoio significativo ao financiamento da dívida pública. Esses programas foram inicialmente concebidos para estabilizar mercados e estimular o crédito, mas, segundo os economistas, acabaram criando uma dependência maior dos governos em relação ao apoio das autoridades monetárias.


De acordo com o texto, embora as compras de títulos pelos bancos centrais não sejam oficialmente caracterizadas como financiamento direto do governo, sua escala e persistência implicam um papel substancial no apoio às necessidades de financiamento do setor público, criando incentivos menores para ajustes fiscais necessários.

Resultados de políticas monetárias expansionistas

Rajan ressalta que, em períodos de expansão de liquidez, como aqueles após crises econômicas recentes, os bancos centrais acumularam grandes carteiras de títulos públicos. Quando tentaram reduzir esses ativos via aperto quantitativo, mercados financeiros experimentaram instabilidade, o que os levou a retomar as compras de títulos, inclusive em momentos de inflação ainda elevada.

Esse comportamento, na avaliação do autor, reduz a pressão sobre governos para implementar ajustes fiscais rigorosos, pois taxas de juros mais baixas e apoio monetário facilitam a rolagem de dívida. Consequentemente, déficits podem se manter elevados por mais tempo, diante de uma menor urgência política em promover cortes de gastos ou aumento de receitas.

Dificuldade na reversão das políticas

O texto também explica que, embora as autoridades monetárias possam argumentar que suas ações visam apenas fornecer liquidez ao sistema financeiro, essa liquidez acaba por servir de apoio indireto ao financiamento do déficit público, especialmente em uma economia em que os bancos centrais mantêm grandes posições em títulos governamentais.

Debate sobre sustentabilidade fiscal

A análise sugere que os países precisam reconhecer os riscos que essas dinâmicas criam. A combinação de déficits elevados, dívida pública alta e bancos centrais com grande exposição a títulos do governo pode limitar a flexibilidade das políticas fiscais e monetárias, dificultando ajustes necessários para evitar cenários de instabilidade macroeconômica no longo prazo.