A Corte de Apelação de Roma expôs, em sentença de extradição depositada em cartório nesta quinta-feira (26), os bastidores minuciosos da fuga da ex-deputada federal Carla Zambelli. O documento judicial revela que a permanência da brasileira na Europa não foi fruto do acaso, mas sim de uma operação coordenada que envolveu suporte familiar, planejamento financeiro e o aproveitamento estratégico de falhas tecnológicas na segurança internacional. De acordo com os magistrados italianos, Zambelli utilizou uma “janela técnica” para entrar no território europeu sem ser detectada. Após deixar o Brasil em 5 de junho de 2025 com destino aos Estados Unidos, ela partiu de Miami rumo à Itália exatamente um dia após o Supremo Tribunal Federal (STF) expedir sua ordem de prisão.
O fator determinante para o sucesso inicial da fuga foi o timing: ela cruzou a imigração italiana antes que o Alerta Vermelho (Red Notice) da Interpol fosse processado e inserido nos sistemas de controle dos aeroportos locais. Essa brecha permitiu que a ex-parlamentar iniciasse sua vida de foragida em solo romano sem levantar suspeitas imediatas das autoridades fronteiriças.
A sentença descreve a existência de uma robusta “rede de suporte para latitância”. Longe de ser uma decisão baseada no custo de vida, justificativa apresentada pela defesa para trocar Miami por Roma, a mudança foi interpretada pela Corte como uma manobra deliberada de ocultação. Zambelli mantinha uma base operacional em um apartamento na Via Borghetto di Vara, onde vivia com o marido.
No momento de sua captura, em julho de 2025, o pai da ex-deputada também estava presente no imóvel, reforçando a tese judicial de que a estrutura familiar foi o pilar central para mantê-la fora do radar da justiça por semanas. Para os juízes Flavio Monteleone, Aldo Morgigni e Fabrizio Suriano, essa rede organizada comprovava um risco real de nova fuga, o que fundamentou a negação de todos os seus pedidos de liberdade.
A justiça italiana confirmou a extradição de Zambelli para o cumprimento de uma pena de 10 anos de reclusão no Brasil. Os crimes citados referem-se a invasões abusivas nos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e falsidade ideológica, ocorridos entre 2022 e 2023. A entrega da ex-parlamentar, no entanto, possui condicionantes diplomáticas: o governo brasileiro deverá assegurar à Itália o acesso consular à presa, garantir comunicações reservadas com seus advogados e fornecer relatórios trimestrais sobre sua saúde e condições na Penitenciária Feminina do Distrito Federal.






















