Cerca de 50% a 60% de todo o lixo doméstico produzido no Brasil é composto por resíduos orgânicos. Quando enviamos restos de comida para aterros sanitários, eles entram em decomposição anaeróbica, produzindo chorume tóxico e gás metano, um dos principais responsáveis pelo efeito estufa. A compostagem é a solução técnica mais eficiente para fechar o ciclo da matéria orgânica dentro da nossa própria casa, transformando um problema ambiental em um recurso valioso para o solo.
Saber como fazer compostagem doméstica é um passo fundamental para quem busca o estilo de vida “lixo zero”. Segundo a WWF Brasil, a compostagem é um processo natural que transforma resíduos orgânicos em húmus, um fertilizante rico em nutrientes. E o melhor: quando feita com a técnica correta, ela é totalmente higiênica e livre de mau cheiro.
Por que transformar seu lixo em adubo?
A compostagem é um processo biológico de reciclagem da matéria orgânica realizado por microrganismos e, em alguns casos, por minhocas. Ao adotar essa prática, você:
- Reduz drasticamente o volume de resíduos enviados para aterros.
- Economiza na compra de adubos químicos para suas plantas.
- Contribui para a redução de odores no seu lixo comum, já que a parte “molhada” é tratada separadamente.
- Auxilia na retenção de água no solo e no controle de erosão.
Tipos de composteira: Seca vs. Com minhocas
Existem dois modelos principais para o ambiente doméstico recomendados por instituições de pesquisa:
- Composteira Seca (Compostagem Aeróbica): Utiliza apenas microrganismos. Depende da adição constante de serragem ou folhas secas para controlar a umidade e exige revolvimento para oxigenação. É ideal para quem tem quintal ou espaço para uma pilha de compostagem no chão.
- Vermicompostagem (Com minhocas): É o modelo mais popular para apartamentos. Utiliza minhocas (geralmente a Vermelha da Califórnia) para acelerar o processo. As minhocas digerem a matéria orgânica e produzem o húmus, um dos melhores fertilizantes naturais existentes.
O Passo a Passo para elaborar sua Composteira (Método de Baldes)
De acordo com as orientações da Epagri e da WWF, você pode construir sua própria composteira utilizando materiais simples:
Materiais Necessários:
3 baldes de plástico (com tampa) de mesmo tamanho.
Uma furadeira com broca fina.
Uma torneira pequena para a base (opcional para o chorume).
Matéria seca (serragem, folhas secas ou palha).
Minhocas (para o método de vermicompostagem).
Montagem:
- Furação: Fure o fundo de dois baldes para permitir a passagem do líquido e das minhocas. O terceiro balde (base) fica sem furos no fundo para coletar o biofertilizante líquido.
- Empilhamento: O balde sem furos fica embaixo. Os dois baldes furados ficam em cima.
- Preparação da Cama: No balde do meio, coloque uma camada de matéria seca (folhas ou serragem) antes de inserir os primeiros resíduos e as minhocas.
Uso: Comece a depositar o lixo orgânico no balde do topo. Quando ele encher, troque de posição com o balde do meio.
O que pode e o que não pode entrar (O guia de segurança)
A seleção dos materiais é o que garante o sucesso do seu sistema de gestão de resíduos.
- Podem entrar (Nitrogênio/Verdes): Restos de frutas, legumes, verduras, borra de café com filtro e cascas de ovo trituradas.
- Podem entrar (Carbono/Marrons): Serragem sem tratamento químico, folhas secas, papelão sem tinta e grama seca.
- NÃO podem entrar: Carnes, laticínios, óleos, gorduras, fezes de animais, papel higiênico e restos de comida muito temperados (sal e alho matam as minhocas). Itens cítricos (como cascas de laranja e limão) devem ser usados com moderação para não acidificar demais o meio.
O segredo do nitrogênio e do carbono (Relação C/N)
O equilíbrio químico da compostagem depende da proporção entre Verdes (Nitrogênio) e Marrons (Carbono).
Regra de ouro: Para cada camada de resíduos orgânicos (verdes), você deve cobrir com uma a duas camadas de matéria seca (marrons).
A matéria seca funciona como um filtro de odores e evita que o sistema fique excessivamente úmido, o que causaria a morte das minhocas por falta de oxigênio.
Solucionando problemas: O que fazer se surgir cheiro ou moscas
Muitas pessoas desistem da compostagem por erros simples que podem ser corrigidos com ajustes técnicos baseados na observação:
- Cheiro forte de amônia: Sinal de excesso de nitrogênio ou falta de oxigênio. Solução: Adicione mais serragem e revolva o conteúdo para permitir a entrada de ar.
- Excesso de umidade: Se o balde parecer encharcado, adicione mais folhas secas ou serragem imediatamente.
- Moscas de fruta (Drosophilas): Ocorrem quando o alimento não foi bem coberto pela matéria seca. Solução: Garanta que nenhum pedaço de fruta esteja visível na superfície da composteira.
- Formigas: Geralmente indicam que o sistema está seco demais. Solução: Adicione um pouco de água ou aumente a quantidade de resíduos frescos.
O Chorume Orgânico: O “Ouro Líquido”
O líquido que escorre da compostagem (biofertilizante) é um fertilizante poderosíssimo. No entanto, por ser muito concentrado, a Epagri recomenda a diluição de 1 parte de chorume para 10 partes de água antes de regar as plantas. Ele enriquece a microbiota do solo e fornece nutrientes de absorção imediata.
Referências consultadas:
WWF Brasil – Passo-a-passo para elaborar sua composteira.
Epagri – Como fazer uma composteira doméstica.
Lei Federal nº 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos).
Princípios de Engenharia Ambiental e Gestão de Resíduos – UFMG.
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