Vai viajar por muitas horas? Seja nas férias de verão ou em deslocamentos a trabalho, trajetos longos em aviões, ônibus ou carros exigem mais do que apenas um bom roteiro. A Medicina do Viajante consolidou-se como uma área essencial da saúde preventiva, focada em mitigar riscos biológicos e vasculares que surgem quando tiramos o corpo de sua rotina de movimento.
Dois dos maiores desafios enfrentados por quem viaja são a Trombose Venosa Profunda (TVP) e a Cinetose (enjoo de movimento). Entender a fisiologia por trás dessas condições é o primeiro passo para garantir que o seu destino seja aproveitado com saúde e sem sustos.
1. Síndrome da Classe Econômica: O Perigo da Imobilidade
O termo “Síndrome da Classe Econômica”, embora popular, é tecnicamente impreciso, pois o risco de trombose não se restringe aos aviões. A Trombose Venosa Profunda pode ocorrer em qualquer situação onde as pernas fiquem paradas e dobradas por mais de 4 horas — incluindo carros, trens e o sofá de casa.
A Visão Médica
Quando ficamos muito tempo sentados, a musculatura da panturrilha — considerada o nosso “segundo coração” — para de bombear o sangue de volta para a parte superior do corpo. Sem essa contração muscular, o sangue acumulado nas veias das pernas torna-se mais viscoso e lento (estase venosa).
Segundo o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, esse cenário é o gatilho perfeito para a formação de um coágulo (trombo). O maior perigo não é apenas a dor local, mas a possibilidade de esse coágulo se soltar e viajar pela corrente sanguínea até o pulmão, causando uma embolia pulmonar, uma condição que pode ser fatal.
Fatores de Risco
Alguns grupos precisam de atenção redobrada:
Usuários de anticoncepcionais hormonais;
Fumantes;
Gestantes e puérperas;
Pessoas com varizes pré-existentes ou obesidade;
Indivíduos com histórico familiar de distúrbios de coagulação.
2. Exercícios Vasculares: Mantenha o Sangue em Movimento
A regra de ouro da Medicina do Viajante é clara: o movimento é o seu melhor remédio. Conforme orienta o Hospital Israelita Albert Einstein, pequenas ações durante o trajeto reduzem drasticamente o risco de edema e trombose.
A Ativação da Bomba: No avião ou ônibus, faça movimentos de “pedalar” com os pés. Suba e desça as pontas dos dedos mantendo os calcanhares no chão e vice-versa. Repita 20 vezes a cada hora.
Caminhadas Estratégicas: Se estiver em um voo longo, levante-se e caminhe pelo corredor assim que o sinal de cintos for desligado. Se estiver de carro, planeje paradas a cada 2 horas. Use esse tempo para caminhar vigorosamente por 5 a 10 minutos, reativando a circulação sistêmica.
Cuidado com a Postura: Evite cruzar as pernas. Essa posição comprime as veias poplíteas (atrás do joelho), dificultando ainda mais o retorno venoso e favorecendo o inchaço dos tornozelos.
3. Cinetose (Enjoo): Quando o Cérebro “Briga” com o Movimento
A cinetose ocorre quando há um conflito sensorial. Seus olhos dizem que você está parado (olhando para dentro do veículo ou para um livro), mas seu ouvido interno (labirinto) detecta a aceleração, as curvas e a vibração do trajeto.
O Erro da Leitura: Tentar ler ou usar o smartphone em veículos em movimento força o cérebro a focar em um ponto estático enquanto o sistema vestibular detecta movimento. O resultado é o desencadeamento de sintomas como náusea, sudorese fria, palidez e tontura.
O Truque do Horizonte: Para aliviar o enjoo, fixe o olhar em um ponto distante no horizonte, preferencialmente à frente do veículo. Isso ajuda o cérebro a alinhar a informação visual com a percepção de movimento do labirinto.
Aliados Naturais: O gengibre é um potente antiemético natural validado cientificamente. Balas de gengibre ou chá gelado levado em uma garrafa térmica são excelentes para estabilizar o estômago sem os efeitos colaterais de sonolência dos medicamentos sintéticos.
4. Hidratação e Alimentação: A Base do Bem-Estar
O que você ingere antes e durante a viagem dita como seu corpo reagirá ao estresse do trajeto.
Hidratação: Beba muita água. A desidratação torna o sangue mais denso e “grosso”, o que aumenta diretamente o risco de TVP. Além disso, a falta de água agrava os sintomas de enjoo e o mal-estar do jet lag. Evite café e álcool em excesso, pois ambos são diuréticos e aceleram a perda de líquidos.
Alimentação Leve: Antes do embarque, prefira carboidratos de fácil digestão e frutas. Evite frituras e alimentos que causem gases. Em altitudes elevadas (avião), a pressão atmosférica faz com que os gases se expandam no intestino, causando desconforto e dor abdominal.
Tabela: Checklist de Saúde do Viajante 2026
| Problema | Prevenção Principal | O que levar na bolsa? |
| Trombose (TVP) | Exercícios de panturrilha e caminhada | Meias de compressão graduada |
| Enjoo (Cinetose) | Olhar o horizonte e evitar leitura | Balas de gengibre ou antieméticos |
| Desidratação | Beber 500ml de água a cada 3h | Garrafa de água reutilizável |
| Inchaço (Edema) | Evitar roupas apertadas e sal | Calçados confortáveis e folgados |
5. Quando Procurar Ajuda Médica após a Viagem?
Muitas vezes, os sintomas da trombose aparecem apenas alguns dias após o desembarque. Fique atento a:
- Dor em apenas uma das pernas (geralmente na panturrilha);
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Vermelhidão ou calor local em uma das pernas;
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Inchaço assimétrico (uma perna muito mais inchada que a outra);
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Falta de ar súbita ou dor no peito (sinais de possível embolia).
Ao notar qualquer um desses sinais, procure um pronto-atendimento imediatamente e informe sobre a viagem longa realizada recentemente.
Referências Consultadas:
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Hospital Israelita Albert Einstein: Trombose dos viajantes: conheça 7 dúvidas frequentes.
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Hospital Alemão Oswaldo Cruz: Como prevenir tromboses e enjoos em longas viagens.





































































