A sucessão de interrupções no fornecimento de energia em São Paulo, com um aumento de 12,8% na frequência de apagões em 2025, transformou geradores e sistemas de backup de emergência em produtos de primeira necessidade para o comércio e a indústria. A corrida por segurança energética ganhou contornos dramáticos nas últimas semanas, com locadoras registrando aumentos que variam de 300% a 5.000% na demanda. Empresas que sofrem prejuízos bilionários com cada blecaute estão migrando de um modelo de contratação emergencial para a adoção preventiva de soluções permanentes.
O pico mais recente ocorreu após o ciclone extratropical da segunda semana de dezembro, que deixou mais de 2 milhões de imóveis sem luz na Grande São Paulo. A Tecnogera, uma das maiores locadoras do país, viu seus pedidos diários saltarem de uma média de 50 para 2.500 – um aumento de 5.000%. Em um único dia, a empresa recebeu 3.000 chamados, contra uma média semanal habitual de 250 solicitações.
“A demanda está exponencial. Se tivéssemos colocado dez vezes mais [equipamentos], ainda assim não seria possível atender”, afirmou Edimar Araujo Sousa, CEO da Multipower Geradores, que teve todos os seus 140 geradores alugados. O diretor da Tecnogera, Jorge Moreno, confirmou o esgotamento: “O nosso estoque zerou”.
Impacto econômico e mudança de perfil na demanda
Os apagões não são apenas um transtorno, mas uma variável econômica de alto custo. A FecomercioSP estima que só nos primeiros dias do blecaute de dezembro, o comércio e os serviços perderam mais de R$ 2,1 bilhões em faturamento. O setor de alimentação fora do lar e hospedagem, um dos mais atingidos, calcula prejuízos de até R$ 100 milhões, com cerca de 5 mil estabelecimentos impactados.
Histórias de perdas materiais se multiplicam: um único açougue na capital paulista relatou a perda de R$ 100 mil em estoque de carne congelada. Diante deste cenário, as empresas não buscam mais apenas um conserto emergencial, mas uma mudança estratégica.
“Agora, cresce a demanda preventiva de empresas interessadas em contratar geradores para reserva (backup) ou soluções de seguro energia”, explicou um representante da Tecnogera. A RT Solar, especializada em energia solar com baterias, recebeu 114 contatos de interessados em poucos dias, número muito acima da média de 10 a 15 leads por semana.
Resposta institucional e futuro do fornecimento
A crise de confiança na infraestrutura atual é palpável. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) abriu processo que pode levar à caducidade da concessão da Enel em São Paulo. Dados oficiais mostram que, entre janeiro e outubro de 2025, houve 328.091 ocorrências de interrupção no estado, um aumento significativo em relação ao ano anterior.
Para o cidadão comum, especialistas recomendam cautela antes de investir em um gerador residencial, que pode custar de R$ 1.500 a R$ 12.000, além das despesas de manutenção e combustível. A avaliação deve considerar a real necessidade, a frequência das falhas e quais aparelhos são essenciais durante um blecaute.
Enquanto a discussão sobre a qualidade do serviço público avança nas esferas regulatórias, as ruas de São Paulo testemunham uma transformação silenciosa. O ronco de geradores, antes som de ocasiões especiais ou obras, torna-se a trilha sonora de uma economia que, cansada de esperar, decide acender a própria luz. A corrida por energia própria deixou de ser uma reação de pânico para se tornar um plano de negócios para 2026.





























































