A intervenção militar EUA na Venezuela, iniciada neste fim de semana, colocou analistas e o setor de combustíveis brasileiro em estado de atenção máxima. Apesar de uma reação inicial moderada dos preços internacionais do petróleo, especialistas avaliam que a situação geopolítica instável gera um “prêmio de risco” sobre o barril e pode trazer volatilidade ao mercado, impactando diretamente a política de preços da Petrobras e, consequentemente, o bolso dos consumidores no Brasil.
O ataque aéreo, que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, foi condenado pelo governo do país como uma “tentativa de impor uma guerra colonial” com o objetivo de se apoderar das imensas reservas de petróleo venezuelanas. Em comunicado oficial, a Venezuela afirmou que a ação ameaça a paz regional e declarou mobilização nacional, elevando o tom de incerteza na América Latina.
Reação Cautelosa do Mercado de Petróleo
Contrariando expectativas de disparada imediata, as cotações do petróleo se mantiveram relativamente estáveis após a notícia. Na primeira sessão do ano, o barril de Brent fechou em US$ 60,75, após leve recuo de 0,16%. Para o professor Pedro Côrtes, da USP, o mercado, por ora, trata o episódio como um “risco potencial” e não como um choque efetivo de oferta.
A análise técnica da curva de futuros, que ainda mostra sinais de “contango” (indicativo de oferta confortável), sustenta essa visão. O cenário de alta mais pronunciada, segundo Côrtes, só se materializaria com evidências concretas de uma interrupção sustentada das exportações venezuelanas. Nesse caso, o Brent poderia subir entre 7% e 15%.
Cenários de Longo Prazo: Pressão de Baixa ou Alta?
Os especialistas divergem sobre o impacto no médio prazo. Pedro Rodrigues, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura e Energia (CBIE), projeta um cenário paradoxal: a médio prazo, uma Venezuela estável e aberta a investimentos poderia retomar sua produção e inundar o mercado com mais petróleo pesado, contribuindo para preços ainda mais baixos globalmente.
No entanto, esse cenário otimista depende de uma transição política ordenada, o que está longe de ser garantido. Um quadro de instabilidade prolongada ou conflito interno poderia, ao contrário, eliminar a produção venezuelana do mercado por um tempo significativo, removendo uma fonte crucial de petróleo pesado e gerando pressão de alta nos preços.
Impacto Duplo para o Brasil e a Petrobras
Para o Brasil, a situação apresenta riscos e oportunidades em dobro. A política de paridade internacional de preços da Petrobras significa que quaisquer oscilações no mercado global são rapidamente refletidas nos combustíveis domésticos. Petróleo mais barato no exterior poderia significar combustível mais barato nas bombas.
Por outro lado, uma queda acentuada no preço do barril reduziria a receita e pressionaria o balanço financeiro da própria estatal, altamente alavancada no petróleo. A empresa, portanto, fica na berlinda entre repassar um eventual benefício ao consumidor e proteger sua saúde financeira.
EUA na Venezuela: Outros Fatores em Jogo e Alerta Nacional
Além do episódio venezuelano, o mercado global monitora outros focos de tensão, como possíveis conflitos no estreito de Ormuz e o desfecho da guerra na Ucrânia, que também afetam a oferta. Internamente, o consumidor brasileiro já sente outro impacto direto: o reajuste do ICMS sobre combustíveis, que entrou em vigor em 1º de janeiro, elevando o litro da gasolina em R$ 0,10 e o do diesel em R$ 0,05.
O governo brasileiro está atento. Além do impacto no petróleo, existe uma preocupação tangível com as consequências humanitárias e comerciais. O agronegócio nacional, que exportou mais de US$ 1 bilhão em produtos para a Venezuela entre 2021 e 2022, teme pela interrupção de contratos e por calotes. Uma crise migratória na fronteira com Roraima também é uma possibilidade real, sobrecarregando a estrutura local.
Enquanto a comunidade internacional reage e o futuro político da Venezuela se desenha, analistas brasileiros seguem com os olhos fixos nos terminais. O consenso é de que os próximos dias serão decisivos para saber se a intervenção será apenas mais um capítulo volátil ou o estopim de uma crise duradoura no coração energético da América do Sul.
Para compreender melhor os fatores em jogo:
Leia também:

































































